
Existem pessoas com “egos inflados”. Muito orgulhosas de si mesmas, vaidosas, com auto-imagem muito positiva (às vezes exagerada), em geral pessoas bastante seguras das suas posições (muitas certezas e quase nenhuma dúvida), ambiciosas, que correm principalmente atrás de seus próprios interesses. Se esses interesses estiverem relacionados ao resultado de uma organização, de um negócio ou de um grupo de pessoas, todos os envolvidos saem ganhando, direta ou indiretamente. Mas desde logo é preciso lembrar que não é fácil conviver com elas. Esses “egos inflados” precisam ser permanentemente alimentados, reconhecidos e trabalham duramente para isso, custe o quê e a quem custar.
É bem possível afirmar que algumas pessoas trazem do berço essas características básicas de personalidade. Mas pode também haver um fato gerador ou desencadeador do inflar de um ego: seja um feito notável, uma conquista surpreendente, um evento que dê a alguém uma notoriedade pouco comum. Vide as “celebridades” fabricadas pela TV, que saem do anonimato absoluto para a fama, como os BBB, e muitas vezes tornam-se “egos inflados”. Ou os jogadores de futebol com feitos notáveis, aos 18 anos de idade!
Mas “egos inflados” são encontrados em todos os lugares e o mundo corporativo não está isento deles. Rara a empresa que não conta alguns deles na sua composição, muitas vezes em posição de comando de negócios e áreas. A pergunta que nos propomos responder é: quanto essas personalidades ajudam e quanto atrapalham, o que têm de positivo e quais os pontos prejudiciais, considerando principalmente sua influência no clima organizacional como um todo, ou no clima das áreas em que trabalham ou sob sua responsabilidade?
Quando é possível identificar no “grande ego” conhecimentos, habilidades e outras características pessoais adequadas ao exercício das suas atividades e ao papel que representa nas organizações, menos mal. Quando isso não é verdade, o “grande ego” é apenas problema e pode causar graves estragos.
Os “egos inflados” gratuitos, sem conteúdo ou atitudes positivas, sem competências compatíveis com as necessidades de uma atividade profissional, sentem-se eternos injustiçados. Acreditam que dão muito e não são reconhecidos à altura, que estão subutilizados, ou ainda prejudicados pela inveja dos demais, perseguidos pelos superiores. Têm muita dificuldade de atuar em grupo, onde em geral querem que prevaleçam as suas idéias, ou se desestimulam rapidamente, podendo assumir um comportamento passivo, ou tumultuar os trabalhos, prejudicando os seus resultados.
Tenho conhecido “egos inflados” que aportam grandes contribuições para suas empresas, tornando-se “cases” de sucesso, quer pelos seus resultados, quer pela admiração que conseguem despertar, sendo apontados pelas suas equipes como grandes líderes, apesar de estilos de gestão às vezes questionáveis pelo nível de autoritarismo, pelo nível de pressão que instauram no ambiente de trabalho, por outras restrições. Em geral são visionários e inspiradores, corajosos e destemidos, sempre perseguindo metas superiores. São modelos, verdadeiras referências de eficiência, visão do negócio, capacidade de realização e dedicação, nas áreas em que atuam.
Quem viu o filme “O Diabo Veste Prada” tem um exemplo do que estou falando, na figura de Miranda Priestly (baseada em Anna Wintour, chefe suprema da Vogue America há quase 20 anos), exemplarmente representada por Meryl Streep, no papel da principal executiva da revista Runaway Magazine, a mais importante revista de moda de Nova York.
Miranda Priestly é um grande ego, uma referência tão forte no universo fashion, que os estilistas mais consagrados mostram suas coleções previamente a ela e alteram suas criações ou cancelam desfiles, se percebem uma reação negativa na sua avaliação. Pode-se dizer que ela dita a moda, a partir de sua sensibilidade e percepção de tendências, com base num rico repertório de informações e conhecimentos.
Os aspectos positivos deste ego gigante, especificamente, são os resultados que traz para a revista que dirige, o reconhecimento inquestionável dos profissionais da área em que atua, o que as pessoas à sua volta podem aprender com ela – pela observação – sobre estilo e o mundo da moda, o orgulho que desperta nas pessoas que pertencem à sua equipe, a conseqüente valorização desses profissionais no mercado de trabalho. Ter trabalhado com Miranda Priestly torna invejável qualquer currículo.
Os aspectos negativos são o clima de tensão permanente que gera no ambiente de trabalho, seu individualismo, sua baixíssima tolerância a frustrações e com resultados que julgue abaixo da média, sua incapacidade de formar ou desenvolver pessoas (deseja que venham prontas e com alta capacidade de autodesenvolvimento), sua arrogância e sua frieza no relacionamento interpessoal, sua quase impossibilidade de manter relações afetivas duradouras (desinteresse mesmo), seu desrespeito nas avaliações.
Não existem muitas personalidades no grau de egocentrismo de uma Miranda Priestly (ou na fonte que inspirou a criação dessa personagem, uma Anna Wintour) no mundo corporativo, é claro, mas o estereótipo fornece elementos para a análise das contribuições e não contribuições das pessoas com essas características.
Se você já assistiu ao O Diabo Veste Prada, deve ter observado esses aspectos. Se ainda não viu ou não se atentou para isso, e tem interesse, confira. É uma aula sobre o tema.
por José Luiz Negrini
Comentários em: "Os “Egos Inflados” nas organizações" (1)
Excelente! O texto aborda de maneira simples e clara as características desse perfil e seus resultados no ambiente corporativo.